Actividades Diárias, Migração e Navegação

Fora da época reprodutiva, as tartarugas marinhas podem migrar centenas ou milhares de quilómetros. Podem dormir na superfície quando estão em águas profundas ou no fundo sob rochas em áreas próximas à costa.
Após o nascimento, os filhotes emergem do ninho e correm para o mar, passando as horas seguintes a nadar para regiões oceânicas, onde estão mais seguros de predadores e conseguem alimentar-se. Durante um longo período, chamado de “anos perdidos”, imagina-se que os filhotes realizem passivamente migrações pelágicas, associadas a bancos de Sargassum em zonas de convergência de correntes marinhas. Após este período as tartarugas já estão grandes o suficiente, na sua fase juvenil, para retornarem às águas costeiras. As tartarugas marinhas em geral passam seu estágio de vida juvenil, alimentando-se e crescendo em águas costeiras. Quando adultos durante as temporadas reprodutivas, quando é a época de acasalamento e desova, ambos machos e fêmeas, migram das suas áreas de alimentação para as praias de desova, onde ocorre o acasalamento e as fêmeas sobem a praia para desovar. Esta migração periódica ira continuar por toda a sua vida.
As migrações realizadas entre as áreas de crescimento, alimentação e desova podem significar grandes deslocamentos, bem como a entrada e saída de diferentes habitats costeiros e oceânicos.
Em mar aberto, as tartarugas marinhas encontram fortes correntes, e são capazes de navegar regularmente por longas distâncias para encontrar as suas praias de desova. Como elas o fazem é um grande mistério, sendo os seus mecanismos de navegação estudados por várias gerações de pesquisadores.

Acasalamento

Machos e fêmeas migram para as áreas de reprodução, a cópula acontece no mar. Durante a corte, a fêmea pode exibir comportamento de recusa, mantendo-se na posição vertical, exibindo o plastrão ao macho. No entanto, tal comportamento pode apenas retardar a cópula, já que os machos não desistem de perseguir a fêmea. Quando a fêmea deixa de resistir e aceita o macho, estes agarram a fêmea com as barbatanas anteriores, auxiliados pelas unhas mais longas e o namoro começa com algumas mordidas no pescoço e ombros. A cópula pode durar várias horas. A fecundação é interna e uma fêmea pode realizar uma média de três a cinco desovas para uma mesma temporada de reprodução, com intervalos médios de 10 a 15 dias. A fêmea pode copular com vários machos, assim como os machos podem copular com várias fêmeas.
Após a cópula os machos migram para áreas de alimentação e as fêmeas dirigem-se para as praias de desova.
Sabe-se também que as fêmeas têm a capacidade de armazenar o sémen dos machos no oviducto (assim como acontece com outras espécies de répteis, e.g. as serpentes), procedendo a fecundação dos óvulos, um ou dois meses depois.

Desova

Para desovar, as fêmeas procuram praias desertas e normalmente esperam o anoitecer, uma vez que o calor da areia, durante o dia, dificulta a postura e a escuridão protege-as de vários perigos. Tal hábito pode também estar relacionado com as limitações fisiológicas de manutenção da temperatura do corpo, evitando longa exposição ao sol. Em algumas situações, porém, são observadas desovas diurnas, geralmente condicionadas aos horários de maré-alta, em locais circundados por barreiras de recifes, que impedem a subida das fêmeas em marés baixas.
Quando a noite vem, as tartarugas escolhem preferencialmente, um trecho de praia livre da acção das marés. Ao encontrar um local apropriado, com as barbatanas anteriores e com movimentos que envolvem todo o corpo, a fêmea escava um grande buraco redondo, de mais ou menos dois metros de diâmetro, a cama, onde se vai acomodar para iniciar a confecção do ninho. Elas podem fazer várias camas, até escolherem o local ideal para pôr os seus ovos. Feita a cama, cavam o ninho, em movimentos sincronizados com as barbatanas traseiras alternando entre uma e outra. O ninho tem cerca de meio metro de profundidade e quando está pronto a tartaruga começa a colocar os ovos. Por terem uma casca flexível, não se partem ao caírem uns em cima dos outros. Os ovos ficam protegidos, cobertos por uma espécie de muco e pela areia com que a tartaruga cobre o ninho. Após a postura a fêmea cobre o ninho e faz a camuflagem do local de postura, utilizando os membros posteriores e anteriores, tentando disfarçar o local de postura de eventuais predadores. Após a camuflagem retorna ao mar.
Situações como a presença de lixo na areia, barulho e/ou iluminação repentina (ou contínua) e outros factores ambientais, podem desestimula a subida da fêmea, e consequentemente provocar o seu retorno imediato ao mar. Nestas situações, a fêmea retorna pouco tempo depois em locais adjacentes, para desovar.
Este comportamento varia um pouco de acordo com a espécie e com a área em questão, mas sabe-se que em uma temporada de desova a mesma fêmea pode realizar entre três a seis posturas com intervalo internidal de 12 a 16 dias entre uma postura e outra. As fêmeas normalmente não se reproduzem em anos consecutivos. A duração entre dois períodos reprodutivos é definida como intervalo de remigração. Este período varia entre espécies e entre populações da mesma espécie. Os ciclos reprodutivos podem ser anuais, bianuais, trianuais ou irregulares. De modo geral o intervalo de remigração das fêmeas pode oscilar entre 1 e 9 anos.
Este período varia entre espécies e entre populações da mesma espécie, podendo aumentar ou diminuir devido à quantidade e qualidade de alimento, mudanças ambientais e distância das áreas de alimentação e reprodução.
A desova nem sempre é realizada solitariamente. Uma variação deste comportamento é observada no gênero Lepidochelys, que em algumas áreas de reprodução realizam o fenômeno conhecido como “arribada”, em que milhares de fêmeas procuram as mesmas praias para desovar ao mesmo tempo. Acredita-se que tal comportamento possa ser estimulado pela liberação de substâncias (hormónios), pelos poros localizados na porção ventral das escamas marginais, observados somente nesta espécie, estimulando outras fêmeas a desovar ao mesmo tempo.

Nascimento dos filhotes

Depois da postura a mãe volta para o mar e entre 45 e 60 dias depois, dependendo da temperatura da areia da praia, os cerca de 120 ovos rompem-se e nascem os filhotes. Um filhote ajuda o outro, com movimentos sincronizados, retirando a areia, num comportamento denominado como “facilitação social”, até alcançarem a superfície do ninho. Saem assim do ninho todos ao mesmo tempo, diminuindo o risco de predação individual.
O nascimento ocorre geralmente à noite, comportamento orientado pelo gradiente de temperatura da areia, relacionado com a protecção contra predadores, já que em sua maioria, os filhotes tem coloração escura, e durante o dia, se tornam facilmente avistados na areia branca da praia.
A temperatura da areia é determinante na diferenciação do sexo das tartaruguinhas. A chamada temperatura pivotal, temperatura da areia durante o período de incubação que origina 50 % de filhotes para cada sexo, varia de espécie para espécie e entre populações da mesma espécie. Temperaturas mais baixas geram machos (em média abaixo dos 27ºC) e temperaturas mais elevadas geram fêmeas (em média acima dos 33ºC).
Os filhotes são pequenos e frágeis, medindo apenas cerca de cinco centímetros. Muitos são devorados por caranguejos, aves marinhas, polvos e principalmente peixes. Outros morrem de fome e doenças naturais. Estima-se que de cada mil tartarugas nascidas, apenas uma ou duas vão chegar à idade adulta. Mas, depois de adultas, poucos animais conseguem ameaçá-las – à excepção do homem.
No momento da corrida para o mar, pode ocorrer o imprinting de informações químicas espaciais que podem ser usadas quando adultos para reencontro da área de reprodução, onde nasceram. Embora uma série de estudos já tenham abordado esta questão, ainda não se sabe exactamente que mecanismos controlam esta notável capacidade de navegação e de que forma.

Orientação

Os filhotes de tartaruga marinha orientam-se por diversas formas desde que nascem. Ao sair do ninho, procuram a luminosidade do horizonte no oceano e correm em direcção a este. Luzes artificiais e fogueiras podem interferir provocando a desorientação e mortalidade de muitos filhotes.
Assim que alcançam o mar, os filhotes utilizam dois factores para se orientar. O primeiro, a ondulação, pode levar o filhote a afastar-se mais rapidamente da costa, aumentando suas hipóteses de sobrevivência. O segundo, a orientação magnética, são capazes de detectar o ângulo e a intensidade do campo magnético terrestre, a presença de magnetita no cérebro das tartarugas marinhas sugere uma possibilidade para compreender a capacidade de orientação.

Hábitos alimentares

De uma forma geral, os quelónios são animais oportunistas, geralmente omnívoros. Os hábitos alimentares variam entre espécies e também em função da fase de crescimento, comportamento e factores ecológicos. Há uma grande mudança na alimentação da fase pelágica (durante os primeiros anos de vida) para a fase juvenil, a qual é geralmente associada a habitats bentónicos. As preferências alimentares são manifestadas a partir da idade juvenil, mas o desenvolvimento e a duração dessas escolhas ainda não são bem entendidos.
Apesar de suas preferências alimentares manifestadas a partir da idade juvenil, oportunidades não são desperdiçadas. Desta forma, além de seu alimento preferencial, as tartarugas marinhas podem também se alimentar de animais mortos (saprofíticos), ovos de peixes e até mesmo de lixo humano, fato este que pode levar as tartarugas à morte.

Associações com outros Seres Vivos

As tartarugas marinhas têm frequentemente uma variadíssima e por vezes luxuosa variedade de organismos na sua carapaça ou outras partes do corpo. As tartarugas podem desalojar alguns destes organismos agregados ao seu corpo com a ajuda das barbatanas, e o crescimento destes organismos pode também ser diminuído pela acção de outros animais, na sua maioria herbívoros. Algumas tartarugas procuram peixes ou camarões limpadores. Numa simbiose de limpeza, um peixe ou um camarão obtêm alimento do corpo da tartaruga, aliviando-a de algas, ectoparasitas ou tecido morto. Várias espécies limpadoras permanecem em determinados locais nos recifes, como se fossem “estações de limpeza” que são procurados pelos supostos “clientes”. Há registos de peixes limpadores de animais tão diferentes como polvos ou raias e tubarões.